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quinta-feira, outubro 08, 2026

CANETAS EMAGRECEDORAS PODEM MUDAR NOSSO JEITO DE AGIR? ENETENDA

As chamadas canetas emagrecedoras seguem em alta entre celebridades e influenciadores, mas o interesse em torno dessas substâncias já ultrapassa a perda de peso. A ciência começa a investigar também possíveis efeitos sobre o cérebro, incluindo mecanismos relacionados à recompensa, à motivação e ao controle dos impulsos.

Um estudo publicado na Nature Medicine, realizado com adultos com sobrepeso ou obesidade, encontrou redução em medidas de impulsividade entre participantes que receberam tirzepatida. Em determinados momentos da pesquisa, também foram observadas mudanças em indicadores relacionados à atenção. Os resultados ampliam as perguntas sobre a ação desses medicamentos no cérebro, mas ainda não permitem considerá-los uma opção para o tratamento do TDAH.

A diferença é importante porque impulsividade, desatenção e hiperatividade fazem parte de um quadro clínico mais amplo.

"Impulsividade e dificuldade de controle sobre determinados comportamentos podem aparecer no TDAH, mas não podemos concluir que um medicamento trata o transtorno simplesmente porque apresentou algum efeito sobre impulsividade em outro grupo de pacientes. TDAH envolve desatenção e/ou hiperatividade e impulsividade dentro de um quadro clínico muito mais complexo", explica o psiquiatra Tales Vilela, especialista em Psiquiatria Infantil.

O que acontece no cérebro?

A curiosidade em torno desse possível efeito também está relacionada aos relatos de pessoas que descrevem uma redução da preocupação constante com comida depois de iniciar esses medicamentos. Os agonistas de GLP-1, classe à qual pertencem substâncias como semaglutida e tirzepatida, atuam em mecanismos relacionados à saciedade, mas sua ação não se restringe necessariamente à sensação de fome.

Pesquisas vêm investigando como essas substâncias podem se relacionar com áreas do cérebro envolvidas em recompensa e comportamento. Isso ajuda a explicar o interesse científico pelo tema, mas não significa que os medicamentos tenham sido desenvolvidos ou aprovados para modificar esses aspectos.

"Quando o paciente passa a ter menos fome e menor preocupação constante com comida, ele pode interpretar essa experiência como uma sensação de maior controle. Isso é diferente de afirmar que houve melhora do TDAH. São medicamentos desenvolvidos e indicados dentro de contextos metabólicos específicos, e não devemos ampliar uma indicação apenas com base em percepções individuais", diz Patrick Ferreira, médico e presidente da Academia Brasileira de Clínica Médica.

E quem tem TDAH e usa uma caneta?

A questão pode ser especialmente relevante para pessoas que convivem com mais de uma condição de saúde. Obesidade e TDAH, por exemplo, podem estar presentes na mesma pessoa, o que significa que diferentes medicamentos podem fazer parte do acompanhamento.

Nesse cenário, qualquer mudança percebida depois do início de um novo remédio deve ser discutida com o profissional responsável.

"Se um paciente com TDAH percebe mudança no foco, na impulsividade, no sono, no humor ou no comportamento depois de iniciar outro medicamento, essa informação é relevante e deve ser levada ao médico. O que não devemos fazer é interromper o tratamento do TDAH ou começar uma caneta esperando obter esse efeito", orienta Tales.

Também não há indicação para usar essas substâncias com o objetivo específico de controlar impulsividade ou sintomas relacionados ao TDAH. Os resultados observados até agora fazem parte de uma investigação que ainda precisa avançar antes de qualquer mudança na prática clínica.

"Estamos descobrindo muito sobre essas moléculas, e provavelmente ainda veremos novas aplicações sendo estudadas. Mas existe uma distância importante entre um mecanismo biologicamente interessante, um resultado inicial de pesquisa e uma indicação terapêutica comprovada. O entusiasmo não pode correr mais rápido do que a evidência", pontua Patrick.

Fonte: https://oglobo.globo.com/ela/noticia/2026/10/08/canetas-emagrecedoras-