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quarta-feira, maio 13, 2026

DA VERGONHA AO EXIBICIONISMO: COMO O CELULAR E AS REDES SOCIAIS MUDARAM AS REGRAS DE CONVIVÊNCIA

Você entra no ônibus lotado e, ao lado, alguém coloca um áudio de WhatsApp no volume máximo. A voz metálica na velocidade 2 invade todo o veículo. No banco de trás, um jovem assiste a vídeos no TikTok ecoando risadas, batidas eletrônicas e trends. Na padaria, você ouve toda a ligação no viva-voz de um homem fechando negócios. O espaço público virou extensão da vida privada. O incômodo pode até existir, mas acaba camuflado na correria do dia a dia.

A psicóloga social Camila Fardin afirma que a vergonha, que antes paralisava certas ações, está se apagando. “A gente parava uma série de comportamentos inadequados ou incorretos por vergonha do outro ver. E a vergonha tem desaparecido fortemente nos últimos anos”, observa.

Segunda ela, os alunos não têm mais pudor de dizer que colaram ou de falar mal dos professores na frente dos próprios. “As pessoas, no geral, não têm mais vergonha de publicizar comportamentos indevidos ou diagnósticos de saúde”, exemplifica.

Para a psicóloga, as redes sociais ajudaram a criar uma sociedade do voyeurismo e do exibicionismo. “Hoje é valorizado socialmente que você mostre a sua vida. E o outro, por sua vez, é aquele que consome a vida alheia. Isso já foi mostrado por outros filósofos no fenômeno chamado ‘sociedade do espetáculo’”, relata.

Doação de fones

O professor e psicólogo social Claudio Paixão lembra que há pouco usar o celular em público era visto como inconveniente. Um exemplo é o movimento viral criado nas redes sociais por volta de 2012 chamado “Doe um fone para um funkeiro”, que pedia a doação dos dispositivos de áudio para pessoas que ouviam música alta no transporte público. O objetivo era promover a boa convivência e o sossego dos usuários. “No início, você usar o telefone celular num restaurante, num ônibus ou numa reunião era considerado super inadequado. Hoje isso aí vai se tornando fluido”, contrapõe.

O intrigante é que mesmo tendo alternativas – hoje existem diversos modelos de fones de ouvido, inclusive sem fio – as pessoas optam por não usar. “Tem uma atenção autocentrada. O cérebro da gente vai priorizar naturalmente o estímulo que tem a ver com o meu interesse imediato. Além disso, usar viva-voz é mais confortável. Eu não tenho esforço físico, eu consigo estar multitarefa ali. É economia cognitiva”, explica Paixão.

Diante do fenômeno dos smartphones que nos tornaram conectados 24 horas por dia em qualquer lugar, Paixão destaca o conceito do “território privado portátil”. “É como se eu me fechasse em uma bolha. Então, eu estou fisicamente no espaço coletivo, mas estou conectado psicologicamente com um ambiente social que está distante”.

Ele acredita que não estamos diante de uma morte definitiva do constrangimento social, mas de uma transformação profunda das normas de convivência. “O constrangimento é uma espécie de regulador das relações interpessoais. Ele surge quando a gente percebe o risco de reprovação social”, explica o professor. “As normas de convivência, especialmente as relacionadas ao uso do celular não estão fechadas, ainda estão no nível da negociação”. 

Normas de convivência

Segundo o psicólogo, as normas de convivência têm relação com três elementos: a percepção de um consenso, ou seja, todo mundo tem que achar aquilo inadequado; a expectativa de uma punição social; por fim, a observação do comportamento alheio.

“Quando muita gente começa a agir de uma forma diferente, sem sofrer sanção, ocorre um efeito de normalização disso. É aquele terceiro ponto, observação do comportamento alheio. ‘Ué, o quê que tem eu fazer? Todo mundo faz!’”, ilustra.

Individualismo contemporâneo

A falta de vergonha ou constrangimento em usar o espaço público como extensão da vida privada é reflexo do crescimento do individualismo especialmente nas grandes cidades hiperconectadas. A psicóloga social Camila Fardin explica que com a pós-modernidade e o avanço das redes sociais houve uma inversão de valores. “Existe um enfraquecimento do coletivismo e um enaltecimento do individualismo. Isso é uma característica da sociedade pós-moderna”.

Ela observa ainda que muitas ações que parecem ser em prol do coletivo, na verdade, carregam motivação individual. “Algumas vezes eu faço pelo outro para mostrar o quão bom eu sou”, exemplifica.

O psicólogo Claudio Paixão aprofunda o impacto das plataformas digitais nesse processo. Segundo ele, as redes sociais estimulam permanentemente a autoapresentação constante e transformam a vida em uma vitrine. “Eu estou tempo todo me colocando ali em evidência. Tudo tem que ser personalizado. Eu sou o centro, eu sou o protagonista de uma vitrine. Quanto mais as pessoas me veem, quanto mais agito eu causo, mais atenção eu recebo, mais eu me destaco”. Ele lembra que, ao longo da evolução humana, sempre competimos por status e atenção, portanto, o volume alto do celular pode funcionar como uma forma simbólica de marcar presença e território.

Ainda segundo o psicólogo, a sobrecarga cognitiva gerada pelo mundo digital piora o quadro. “Eu estou cansado, estou hiperestimulado, estou conectado o tempo todo e aí eu vou ficando cada vez mais no modo automático, cada vez eu penso menos”. Com o cérebro funcionando no piloto automático, a consideração pelo outro no espaço público acaba sendo uma das primeiras coisas a ser deixada de lado, finaliza.

Fonte: https://www.otempo.com.br/interessa/2026/5/12/